Psicologo atendendo paciente frustrado

Você já se perguntou quem é você? Tente responder a essa pergunta sem que o que te define seja algo que você faz. Quem você, de fato, é? Essa resposta deveria ir bastante além de “eu sou psicólogo”, no meu caso, por exemplo. Mas aos poucos, o ritmo dos dias está levando embora nossa capacidade de compreender quem somos para além das funções que exercemos em nossas famílias, nossos trabalhos, ou nossa comunidade.

gato dormindo numa cama e debaixo de um cobertor

De acordo com o IBGE, em média, os brasileiros passam 9 horas no trabalho, mais 5 horas se deslocando para lá e de volta para suas casas. Também em média, passamos 7 horas e 48 minutos dormindo.

Se somarmos tudo isso, sobram somente 2 horas e 12 minutos de tempo “livre” – que, na prática, são destinados a cuidar das nossas casas, famílias, atividades como academia, cursos etc. Ou seja, a ideia de que todos têm as mesmas 24 horas no dia não só é absurda, como desonesta.

Porém, acima de tudo isso, vivemos sob um altíssimo fluxo de informação. Quando não estamos focados nas tarefas, seja do trabalho ou domésticas, quase sempre estamos consumindo algum tipo de conteúdo – televisão, streaming, redes sociais, ou até mesmo um livro (caso você esteja nadando contra a corrente). A realidade é que, durante pouquíssimo tempo dos nossos dias estamos disponíveis para olhar “para dentro”. Estamos o tempo todo absorvendo e processando informação e quase nunca analisamos seriamente seu conteúdo.

A ansiedade de alto funcionamento

Apesar de não ser um transtorno reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), o termo tem ganhado espaço na mídia e nas redes sociais como um definidor para pessoas que apresentam sintomas de ansiedade enquanto mantêm um alto nível de funcionalidade em vários aspectos de suas vidas. Frequentemente, são bem-sucedidos em carreiras ou outras funções, mas lutam internamente com sentimentos persistentes de estresse, insegurança e síndrome do impostor. São pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis ​​por dentro e lutam contra uma autocrítica excruciante.

foto de uma multidão passeando por uma estação de trem inglesa

Aos olhos da multidão, as pessoas com ansiedade de alto funcionamento podem parecer estar muito bem, no controle de suas vidas e bem estar. Elas não parecem evitar ou recuar frente aos desafios da vida. Elas podem ter carreiras de sucesso, participar de atividades voluntárias ou comunitárias e ter ótimos relacionamentos pessoais.

No entanto, por trás desta fachada de serenidade, estas pessoas têm pensamentos persistentes de preocupação com o futuro, medo e níveis elevados de estresse.

Alguns criadores de conteúdo inclusive ressaltam o lado positivo desse tipo de ansiedade, como se manter-se produtivo fosse o segredo para a felicidade. Mas será que esse raciocínio se sustenta?

Ser altamente funcional num mundo de alta demanda intelectual

É importante deixar estabelecido que conseguir completar todas as tarefas, apesar de estar em um estado profundo de sofrimento psíquico, não deveria ser motivo de orgulho para absolutamente ninguém. Dedicar algum tempo para olhar para o que estamos sentindo deveria ser um direito universal e é, atualmente, a forma de autocuidado mais urgente.

pessoa fora de foco numa sessãol de terapia

Situações em que nosso corpo e mente precisam urgentemente de algo e nós não agimos sobre essa necessidade costumam gerar muita ansiedade. Por exemplo, imagine que seu corpo e mente estão muito cansados, mas você está distraído demais sendo altamente funcional, produtivo no trabalho ou consumindo uma quantidade gigantesca de vídeos de 15 segundos no TikTok. Você está, de fato, sendo funcional, ou apenas está distraído demais para perceber seu próprio desconforto?

Fato é que a diminuição da nossa funcionalidade é um mecanismo de defesa do organismo, assim como a febre em casos de infecção. É apenas natural que não possamos manter o mesmo nível de produtividade quando estamos afetados por algum sofrimento psíquico. Ignorar os sinais que nosso organismo dá não é só irresponsável, mas também perigoso!

Considere fazer terapia!

Muitas pessoas acreditam que fazer terapia é algo reservado a pessoas “loucas”. Outras entendem que fazer terapia é algo elitizado ou muito caro, que o dinheiro investido nesse serviço seria mais bem investido em outras coisas mais “essenciais”.

Preconceitos à parte, a crítica à acessibilidade do atendimento psicológico de qualidade é bastante pertinente. Algumas realidades vividas, principalmente por pessoas em situações econômicas mais restritas, tornam o acesso à psicoterapia menos provável. Se esse é o seu caso, saiba que muitos psicólogos fazem atendimento a preços sociais, de acordo com a situação econômica de seus pacientes. Busque ajuda! Você não precisa passar por nada disso sozinho.

Acima de tudo, não se esqueça que você existe e merece sua própria atenção. E agora que você sabe que é muito mais do que o que você faz, então quem é você?

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